Tendências

O aumento do IVA na restauração não vai afundar todos. Só os que não sabem quanto ganham por prato.

Ramón Rodríguez7 min leitura

Vou começar pelos factos, sem subjetividades. É disto que se trata: Bruxelas pôs um número em cima da mesa. O aumento do IVA na restauração de 10% para 21% recomendado pela Comissão Europeia aumentaria a receita do Estado em quase 7.000 milhões de euros por ano, cerca de 0,4% do PIB.

Pelo que li, a recomendação não é vinculativa. Ainda 🫤

Mas o setor já se inflamou. As associações patronais falam de uma medida "catastrófica": destruição de emprego e queda da procura.

Acho que têm parte de razão. Onze pontos de IVA não são um detalhe, são um golpe direto na conta de resultados de qualquer restaurante.

Mas quero dizer algo com o qual talvez não concordes totalmente: esse aumento não vai afundar todos por igual. E a diferença não estará em quem protesta mais alto.

Há anos que observo como funcionam os números reais da restauração. E aprendi que um choque como este não mata negócios fracos, mas sim achata o colchão de margem que tapava os problemas que já existiam.

O restaurante que sabe exatamente quanto ganha por prato pode manobrar. Sabe o que subir, o que mexer e o que deixar quieto. O que fatura bem mas opera às cegas, não. Esse descobre o buraco quando já é tarde.

Por isso este artigo não vai ser mais um lamento do setor. Já há suficientes.

É sobre como o aumento do IVA afeta realmente os restaurantes. Sobre o que muda na tua margem no dia em que entrar em vigor. E sobre quem sobrevive e porquê.

Spoiler: não é uma questão de sorte. É uma questão de controlo de custos.

O que Bruxelas pediu exatamente

Aqui gostaria de separar o ruído do facto.

A Comissão Europeia incluiu a medida no seu último conjunto de recomendações fiscais a Espanha. A proposta é clara: rever as taxas reduzidas de IVA que hoje se aplicam a hotéis e restaurantes, fixadas em 10%, e elevá-las até à taxa geral de 21%.

O custo de manter essa taxa reduzida é alto. Segundo um relatório da AIReF, a autoridade fiscal independente espanhola, elevar o IVA da restauração de 10% para 21% aumentaria a receita em quase 7.000 milhões de euros por ano. É o equivalente a 0,4% do PIB.

Convém entender bem esse número. Não é dinheiro que o Estado perca. É dinheiro que hoje renuncia a cobrar para manter a redução de 10%. No jargão fiscal chama-se "benefício fiscal": uma exceção que tem um custo para os cofres públicos.

Mas o argumento de Bruxelas não é apenas de receita. E este matiz importa.

A Comissão sustenta que o IVA reduzido tem "um efeito redistributivo muito limitado". Porquê? Porque na prática beneficia mais os rendimentos altos do que os baixos. São quem mais consome em restaurantes e hotéis. E, portanto, quem mais aproveita o preço reduzido. Por outras palavras: para Bruxelas, não estamos a proteger quem julgávamos proteger.

Agora, o mais importante para não nos alarmarmos demais:

A recomendação não é vinculativa. Por agora é isso, uma recomendação. Não há obrigação legal de a aplicar.

Mas chega num momento de pressão fiscal crescente sobre o Governo. E abre uma frente política que não se vai fechar sozinha. Há precedente, além disso. Quando Portugal e a Irlanda subiram o IVA da restauração durante a crise de 2012, sob pressão europeia, os efeitos foram suficientemente negativos para que ambos recuassem. Restauraram as taxas reduzidas poucos anos depois.

Isso diz-nos duas coisas.

  • Uma: o risco é real, não teórico.
  • Duas: nem sequer os Governos que a aplicaram a sustentaram ao longo do tempo.

A pergunta, então, não é só se vai chegar. É o que fazes tu entretanto, como proteges o teu negócio?

O que o aumento do IVA faz à tua conta de resultados (prato a prato)

Vamos à pergunta que importa. Como afeta o aumento do IVA o teu restaurante na prática? Não nas manchetes. Na tua conta de resultados.

Primeiro, um detalhe técnico que muita gente ignora. O IVA não é um custo teu. Quem o paga é o cliente. Tu apenas o cobras e o entregas ao Fisco.

Mas aí está a armadilha.

Esses 11 pontos extra têm de sair de algum lado. E só há duas opções.

Opção A: passas para o cliente. Sobes a carta para manter a tua base. Um prato de 11€ com IVA passa a custar cerca de 12,10€.

Opção B: absorves tu. Mantens o preço de carta. Mas de cada conta, mais dinheiro vai para o Fisco e menos fica na tua caixa.

Vejamos com um exemplo simples. Um prato a 11€ com o IVA a 10%:

Comparação do impacto do IVA em restaurantes: IVA 10% hoje face a IVA 21% absorvido e IVA 21% repercutido

Olha para a opção do meio. Se absorves o imposto, ficas com 9,09€ em vez de 10€. Quase um euro a menos por prato. Isso sai diretamente da tua margem.

Aqui surge a falsa saída. "Então subo tudo ao cliente e pronto."

Quem dera fosse assim tão fácil.

O problema chama-se elasticidade da procura. As pessoas não pagam qualquer preço. Sobes 10% a carta inteira e parte dos teus clientes deixa de vir, ou pede menos.

Num menu do dia de bairro, a margem para subir preços é quase nula. Num restaurante de destino com clientela fiel, há algum espaço mais. Nem todos os negócios aguentam o mesmo.

Por isso a saída real não é subir tudo às cegas. É saber que prato aguenta uma subida e qual não.

E aqui entram dois conceitos que se confundem constantemente: o food cost e a margem.

O food cost é o que te custa produzir o prato. A margem é o que te sobra depois de tudo. Não são a mesma coisa.

Podes ter um prato com food cost baixo e margem péssima. Ou ao contrário. Sem o medir, não sabes.

E esse é o ponto. Para aumentar a margem em restaurantes perante uma subida de impostos, primeiro é preciso saber onde está hoje. Prato a prato.

Quem tem controlo de custos na restauração a sério sabe isto:

  • Que pratos têm colchão para absorver parte do golpe.
  • Quais já vão tão apertados que qualquer subida os põe em perdas.
  • Onde pode mexer no preço sem espantar o cliente.

Quem não o tem decide às cegas. Sobe tudo por igual. Ou absorve tudo por medo. Ambas as coisas saem caras.

O aumento do IVA na restauração não inventa este problema. Apenas o destapa.

Porque enquanto a margem é larga, não medir sai de graça. Quando se estreita, deixa de sair de graça.

E onze pontos estreitam muita margem.

Quem sobrevive a uma subida assim e como?

O que te venho dizendo: sobrevive quem conhece os seus números antes de o golpe chegar. Não quem reage quando já está lá dentro.

E conhecer os números não é olhar para a caixa ao fim do mês. É ter visão das cinco áreas que decidem a rentabilidade: vendas, compras, stock, cozinha e pessoal.

Não funcionam em separado. Funcionam como sistema. Mexer numa sem olhar para as outras é decidir às cegas.

Isto é o que eu faria agora, sem esperar que a medida seja aprovada:

  1. Refazer o escandalho com custos reais. Não com os preços de há seis meses. Os fornecedores já subiram. Se o teu escandalho está desatualizado, a tua margem é uma ilusão.
  2. Identificar os pratos que já vão apertados. Antes de mexer na carta, há que saber que pratos têm colchão e quais não. Subir tudo por igual é o erro mais caro.
  3. Fechar as fugas que hoje ninguém vê. A quebra que não se pesa. A guia que não se cruza com a fatura. O prato que se serve maior do que indica a ficha. É aí que vai a margem, gota a gota.
  4. Mexer nos preços com critério, não com medo. Sobe onde o cliente aguenta. Mantém onde é sensível. Isso só se decide com dados, não com intuição.

A diferença entre sobreviver e não, não é o tamanho do negócio. É se tens controlo de custos ou se vais a olho.

O IVA é decidido por Bruxelas. A tua margem é decidida por ti.

E quando o colchão desaparece, ganha quem já sabia onde estava cada euro.

A tua margem é decidida por ti

Voltemos ao princípio. O aumento do IVA na restauração não vai afundar todos por igual.

Vai afundar quem descobre os seus números quando já é tarde. Quem sobe a carta inteira às cegas e vê o local esvaziar-se. Quem absorve o golpe por medo até ficar sem margem.

O outro vai sobreviver. Aquele que sabe, prato a prato, onde ganha e onde perde.

Porque a forma como o aumento do IVA afeta os restaurantes não depende só de Bruxelas. Depende de quão preparado estás quando chegar.

O imposto não cria o problema. Apenas destapa o que já lá estava, tapado por uma margem larga que perdoava não medir.

Por isso a resposta não é protestar mais alto. É ter controlo de custos na restauração a sério. Saber o teu food cost real, prato a prato. Perceber o que se pode mexer e o que não.

Essa é a única forma de aumentar a margem em restaurantes quando o contexto se vira contra ti. Não com sorte. Com dados.

Há anos que o vejo. Os negócios que aguentam os golpes não são os maiores. São os que sabem exatamente onde está cada euro.

O IVA é decidido por Bruxelas.

A tua margem é decidida por ti.

Gostou deste artigo?

Subscreva o nosso blog